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A família Ral embarca para o exílio na Europa. Seria a última vez que o imperador Dom Pedro II teria uma visão do Brasil, o seu paraíso perdido. O navio que o levava chamava-se Alagoas, e ele, entre a incerteza e a saudade já anunciada, lavrou a derradeira sentença:
"Já que estou em Alagoas, por quê não me levam para Penedo?"
A Cidade, assentada sobre o penhasco, tem o poder de despertar paixões. Dom Pedro II não foi o único. Osvaldo Cruz, sentado a seus pés, chegou a escrever cartas de amor. Getúlio Vargas e Juscelino Kubitscheck por pouco tempo esqueceram a política e caminharam pelas ladeiras e vielas, contemplando o casario e respirando a presença do passado.
Há controvérsias quanto à data de sua fundação. Certeza mesmo, só no fato de Duarte Coelho Pereira, donatário da Capitania de Pernambuco, ter vencido a barra do rio São Francisco no dia 10 de outubro de 1535. Um pouco mais à frente, sete léguas acima da foz, deixou os fundamentos da futura Vila de São Francisco. Este Título foi reconhecido em 12 de abril de 1636, mas em finais daquele mesmo século já se denominava Penedo.
Construindo o futuro na solidez da história, a Cidade está marcada pelo casario colonial, símbolo do barroco nativo, que lhe conferiu o título do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Brasil. Conciliando a estética arquitetônica do Homem e generosidade do patrimônio natural, é uma pátria pequena de grandes sentimentos. Se Duarte Coelho Pereira fosse levado a pronunciar novamente as duas últimas palavras de sua vida, decerto diria:
"Olinda, Penedo "
O Rio São Franciso
A História oficial
Quem nasce no Penedo ganha para a eternidade o sentido líquido da vida. O rio São Franciso vai de uma alma a outra, molhando infinitos universos de devoção e de fidelidade. Este curso d’`água tem raízes e integra um País. É como se a força de suas águas, capaz de correr doze quilômetros por hora mar a dentro, se alojasse para sempre no peito do ribeirinho.
Contam os daqui que a armada do genovês Américo Vespúcio passava em frente à barra quando os nautas enxergaram, na praia distante, a figura de um frade vestindo o borel de franciscano. Piedosos, resolveram socorrer o solitário frade. Embicaram a nau em direção à praia, mas ao invéis do frade, ali só encontraram a barra aberta. Daí o rio perdeu seu nome indígena, Pará, e recebeu por batismo o nome cristão do Santo Assis.
A história oficial, entretanto, registra que a 4 de outubro de 1501, dia de São Francisco, o rio foi descoberto pelo navegador genovês Américo Vespúcio, que batizou de São Francisco, em homenagem tanto sagrada quanto ecológica. Inconteste ainda é o fato do rio já aparecer no mais antigo mapa do Brasil, o conhecido planisférico de D. Alberto Cantino, que data de 1502.
São águas que nascem na Vargem Grande, a 1.428 metros acima do nível do mar, em localidade denominada Chapadão da Zagaia, no cume da Serra da Canastra, no município de Bambuí, em Minas Gerais. No seu caminho de 2.660 quilômetros até o mar, passa por quase 500 comunidades, banhando cinco Estados e tornando-se a contratura que, de muitos brasis, retira um só Brasil.
O rio chega em Algoas por Delmiro Gouveia, onde cai a cachoeira de Paulo de Afonso, gênese da energia do Nordeste. É onde começa o chamado Baixo São Francisco, o último instante deste verdadeiro santo que dá água, comida e energia por onde passa, abençoando a gente que o venera.
Trata-se de uma história generosa, de um diálogo sem fim entre a amizade e a devoção, que nunca mais deixa a lembrança de quem tem o privilégio de conhecê-la, podendo mais tarde, como o poeta, ensinar aos pósteros:
“Meninos, eu vi”
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