Educar para a Democracia

 
 

Fruto de minhas observações como psiquiatra acredito que nenhuma parcela de povo brasileiro é mais individualista, nenhuma apresenta mais baixos padrões de coesão social que a do atual penedense.
Nessas minhas observações tem ressaltado o marcante traço individualista do caráter do homem penedense, o espírito individualista, o exagero do individualismo negativo, não criador e sem conteúdo social-herança talvez da colonização ibérica e que sobrevive até hoje graças a fatores mesológicos e ao processo  econômico-social.
Observo a falta de instituições de solidariedade social. Cabe-nos, talvez, mais que as outras populações em situar as observações de Oliveira Viana: “não praticamos, habitualmente, senão a solidariedade paternal e gentílica, não vamos além da solidariedade de clã. São acidentais entre nós as formas de solidariedade instintiva de cooperação espontânea; e artificiais e fugazes as formas organizadas o que” prova a sua falta de base na psicologia normal do povo”.
A falta de solidariedade social, de espírito de cooperação arrasta-nos a uma experiência de vida pouco eficaz, acentuando a rivalidade e o conflito.
Podemos detectar alguns aspectos desse individualismo no campo político através das práticas políticas e nos métodos de ação dos administradores. E isso porque o individualismo nos leva a gravitar em volta de pessoas e de grupos e não de princípios, idéias ou interesses gerais, e transforma os partidos em verdadeiras “clãs, organizadas para a exploração das vantagens do poder”. Incapazes de sintonizar com as aspirações do povo, com o qual mantêm apenas ligações episódicas, em bases demagógicas, por ocasião dos pleitos eleitorais.
A falta de solidariedade e de cooperação em função dos interesses coletivos, que dá feição pessoal às nossas lutas políticas revela-se fortemente neste velho burgo sanfranciscano.      
Na preocupação das Administrações Municipais de apagar, ou abandonar as iniciativas dos seus antecessores, mesmo quando constituem empresas de real vantagem para a coletividade, ou seja, no narcisismo, a que atribuiu Artur Ramos.
Responsabilidade pela “descontinuidade administrativa” que podemos observar como exemplo podemos citar o abandono do projeto iniciado da transferência da feira párea ao aterro da lagoa.
Na resistência dos administradores à colaboração digna e desinteressada de adversários políticos em questões extra-partidárias e que de fato, consultam os interesses comuns.
No desaproveitamento de valores humanos, salvo quando em serviços partidários prestados, ou desfrutam do amparo de “pistolões” do que resultam: a evasão de nossas reservas humanas em busca de outros meios, e a ausência, por protecionismo, ou por falta nos quadros da situação dominante de elementos especializados nas funções e equipamento profissional.
Por outro lado, vale notar as oposições procuram dificultar a ação do administrador, em detrimento das conveniências do município.
Os administradores do Penedo não encarnam as instituições, não representam a autoridade, não são publícolas, nem agentes do bem-estar coletivo. Procedem nas práticas administrativas como representantes de grupos, visceralmente ligados à vida dos frágeis partidos e aos proveitos personalistas, mesmo nas medidas que atingem as necessidades do povo, às quais imprimem abominável sentido de paternalismo eleitoreiro. Converte-se a administração pública, por conseguinte, numa máquina de guerra com que uma parte da sociedade combate incessantemente à outra. Daí, a reação, a resposta, a represália das oposições. O seu propósito de desprestigiar as outras administrações, de podar-lhes os meios de ação e obstar-lhes as realizações.
Tais manifestações de nosso individualismo retardam o desenvolvimento, dão margem aos erros e as omissões que tanto prejudicam a comunidade penedense, impedindo iniciativas fecundas, e é furtando ao Município e ao povo recursos em barda, colaborações vantajosas e cometimentos benéficos.
Estimular diferentes tendências, vencer o excesso de individualismo, mediante educação para a democracia, o desenvolvimento e o bem-estar comum, é tarefa que reclama execução, a fim de que possa desabrochar nas novas gerações “o espírito de cooperação” e de amor ao próximo, traduzido em termos de serviço.
Carece a escola penedense adotar o processo democrático da educação, a fim de preparar o indivíduo para o exercício dos direitos que a Democracia – como regime político e como forma de vida – a todos assegura, e o cumprimento dos deveres que ela exige de todos. É necessário substituir o trabalho escolar individual e o regime competitivo, que exacerbam o individualismo e produzem tantos males, com as atitudes em comum, o trabalho em equipe e as práticas democráticas, e enriquecer a escola de situações sociais, para que possa esta desenvolver nos alunos hábitos e atitudes de cooperação, solidariedade, responsabilidade, iniciativa, retidão e tolerância. Formar o cidadão, é incultir-lhe o ideal de contribuir para o progresso e a melhoria social, o interesse em participar do esforço comum contra o atraso, a miséria, a ignorância e a enfermidade e é objetivo precípuo da educação para a Democracia, o desenvolvimento e o bem-estar geral.

 


 
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