Fastos penedenses  
 

Através de artigo do Professor Sávio de Almeida publicado em jornal alagoano, soube da morte do Professor Manoel Correia de Andrade.
Aproximadamente 30 dias antes dessa infausta notícia comentava com o professor Douglas Apratto e a museóloga Carmem Lúcia Dantas, quando os recebia no gabinete do diretor da Biblioteca Nacional em Brasília, que a história maior de nossa terra, Penedo, estava carecendo ser escrita. Referia-me naquela oportunidade a realização da XVIIª assembléia da Associação de Geógrafos Brasileiros que ocorreu no Penedo sob a Presidência de Manoel Correia de Andrade.
Agora com seu desaparecimento o Sávio nos convoca, ressaltando as ligações afetivas de Manoel Correia com nosso burgo a que prestemos uma homenagem a esse grande pensador brasileiro a quem me refiro como um Pernambucano Universal.
Ressaltar a importância da obra de Manoel Correia não cabe a min fazê-lo porque não tenho competência para tanto, mas registrar um dos seus feitos que envolve nossa cidade e que passa a história como uma verdadeira efeméride é imperioso nesse momento em que buscamos resgatar a história de nossa cidade, do Rio São Francisco e, ao mesmo tempo, se homenagear o professor Manoel Correia a quem estavam a cidade e o rio intrínsecamente ligados.
Nos anos 60, quando ele presidia a Associação dos Geógrafos Brasileiros escolheu Penedo para sediar a XVII Assembléia Geral – julho de 1962.
Nos cinco dias que antecederam esse certame por sua designação esteve em nossa cidade uma comissão de alto nível constituída por Caio Prado Júnior, Dora de Almeida Romariz, Maria Conceição Vicente de Carvalho, Eduardo Ramos, Eli Piccolo, Gil Toledo, Lea Goldenstein, Manoel de Souza, Marina Salgado, Neuza Cunha, Olga Cruz e Pedro Dal Rio (de São Paulo), Orlando Valverde, Ignez Morais Costa e Salomão Turnowsky (da então Guanabara), Teresa Cardoso da Silva e Lilia Leal de Souza (da Bahia), Antonio Campos (do Rio Grande do Norte), Doralice Costa, Stela Macedo e Stela Mulatinho (de Pernambuco), Maria do Carmo Barbosa, Maria de Lurdes Barreto e Yara Maria Teixeira (de Sergipe).
Estes estudiosos que percorreram as cidades do Baixo São Francisco num minucioso trabalho de campo produziram um dos mais importantes documentos sobre a vida do homem dessa região e que teve como relator o seu coordenador Carlos Augusto Frederico Monteiro – Aspectos Geográficos do Baixo São Francisco, A.G.B. São Paulo 1962.
Para se ter a grandeza desse estudo transcrevemos as considerações finais:

“A – Considerando que a lavoura do arroz, tão bem identificada com as várzeas, representa o papel de maior mobilizadora de mão-de-obra rural, seria, portanto recomendável que se a ampliasse:
1.º) – Existindo ainda em disponibilidade amplas várzeas não cultivadas, (notadamente as do Marituba, Curral do Meio, a próxima à Igreja Nova e outras); e que estas, em virtude da falta de adaptação técnica àquela lavoura, ainda não foram açambarcadas pelos latifúndios, poder-se-ia adaptá-las àquele mister e desapropriando-as transformá-las em lotes, num plano geral de colonização.

2.º) As próprias várzeas já cultivadas, ampliadas por processos aperfeiçoados de irrigação, e subordinadas ao plano geral de colonização anterior, poderiam contribuir ao desafogo da mão-de-obra.
      Poder-se-ia, ao lado dos proprietários atuais, fazer surgir pequenos proprietários, contribuindo assim para a valorização do homem rural, enjeitando das leis trabalhistas.
      B) – Por outro lado, as obras de revalorização e assistência agronômica deveriam ser estendidas ao domínio das vertentes e dos tabuleiros, procurando dar-lhe um aproveitamento mais racional e visando encontrar uma situação de equilíbrio entre a pecuária e a agricultura, melhorando-lhes os sistemas atuais. Trata-se da tarefa mais difícil que a anterior, mas não impossível. O brilhante exemplo da Colônia Pindorama, mostrou ser possível o estabelecimento de colônias agrícolas em terras de “chas” e tabuleiros e comprovou que os nossos caboclos, quando orientados tecnicamente e organizados em cooperativas, podem ascender econômica e socialmente, dedicando-se a culturas comerciais em moldes intensivos.
      C) – Além disto, dentro da possibilidade do meio e da disponibilidade de mão-de-obra existente, com o desenvolvimento da energia e dos transportes, poder-se-ia pensar também em fomentar indústrias ainda que rudimentares de início. Aquela que nos parece mais viável, quer pela abundancia de matéria prima, quer pelo seu aproveitamento na própria região, seria a do pescado. A pesca no rio e nas lagoas poderia deixar o seu aspecto puramente de subsistência e ampliar-se comercialmente. Sabe-se eu atualmente o próprio comércio do peixe fresco no vale é prejudicado pela dificuldade de gelo para o seu transporte às cidades maiores. O peixe miúdo, que é salgado e vendido no sertão também se vê em dificuldades pelo próprio comércio do sal no vale. A este propósito seria de grande alcance uma melhor atenção à área salineira do riacho das Cacimbas. O sal ali obtido, em condições muito rudimentares sobe o vale em canoas, sendo colocado nos portos a preço superior àquele dos parques salineiros do Rio Grande do Norte.
      Estas sugestões são condizentes com o tipo de trabalho que realizamos, isto é, de um simples reconhecimento geográfico. Estudos mais profundos, evidentemente, poderiam dar lugar a várias outras sugestões à consideração dos administradores.
      A situação atual no Baixo São Francisco é de causar apreensões. A triste situação dos trabalhadores rurais, que transcende ao domínio dos campos e se projeta sensivelmente na vida das cidades, é fruto da usura e do açambarcamento das terras pelos latifundiários: a falta de terras para lavouras de subsistência vem se agravando sobremodo. Enfim, a abundante oferta de mão-de-obra, nos padrões vigentes, é colocada em condição de sub-emprêgo e em nível de vida sub-humana. Faz-se mister que os órgãos competentes lancem mão de medidas urgentes a fim de preservar a paz social.
      Reconhecemos que, infelizmente, o caso do Baixo São Francisco não é o único. Em nossos encontros anuais pelas diferentes regiões brasileiras, nós os geógrafos da A.G.B., temos encontrado, muitas vezes, desajustamentos sérios os quais, mesmo predominando no Nordeste, são superados pelo que ora focalizamos. Como geógrafos procuramos servir a nossa Pátria fazendo uso da nossa ciência, visando tão somente a verdade, único objetivo compatível com o espírito científico.  Como seres humanos sentimo-nos tristes de defrontarmos-nos com realidades às vezes bem duras de suportar, mas com esperança e otimismo em que os poderes públicos procuram solucionar os problemas de nossa Pátria dentro de um clima de paz e ordem social.
      Após a memorável Assembléia de Penedo, como acontece ao fim de cada reunião anual da A. G. B., saímos de lá sentindo-nos cada vez mais brasileiros e côncios dos nossos problemas.
      Unindo nossas fôrças no ideal supremo do bem-estar da coletividade brasileira, deveríamos nós técnicos, os planejadores e políticos, procurar realmente dar uma solução aos problemas atuais do Baixo São Francisco, a fim de que o nosso decantado rio da “unidade” não se destacasse tanto dentro do quadro, infelizmente grande, da “miséria” nacional.”

Escrito há quase meio século sua atualidade é permanente. Este documento é ricamente ilustrado com fotos clicados por Caio Prado Júnior.

Como se não bastasse esse episódio foi coroado com a sucessão de Manoel de Almeida na presidência da Associação dos Geógrafos Brasileiros que teve uma acirrada disputa sendo eleito o consagrado Milton Santos para presidir os destinos da A. G. B. no período que se iniciava. A eleição e posse de Milton Santos ocorreram no interior do Teatro 7 de Setembro, local onde se realizava a XVIIª assembléia.
Estes acontecimentos que se constituíram Fastos Penedenses devem ser estudados pelas gerações presentes, por sua importância histórica e pela magnitude dos trabalhos de campo ali realizados, pois a região do baixo São Francisco possivelmente não tenha sido tão bem avaliada em seus aspectos geográficos, sociais e econômicos como por aquela douta comissão e relatada por Carlos Augusto Frederico Monteiro.
Nas homenagens que serão prestadas ao professor Manoel Correia de Andrade e coordenadas pelo Sávio de Almeida, a nossa Penedo deve ter uma participação especial como reconhecimento ao importante trabalho deste Pernambucano Universal.

 
05 de julho de 1962

 

 
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